De Camões, em pura verdade, pouco sabemos. Nasceu pobre, viveu pobre, morreu mais pobre ainda
(senão miseravelmente), ele, que amontoou bens que milhares e milhares de homens não têm chegado
para delapidar. E será difícil exaurir tão fabulosa fortuna. Porque – quem o duvida? – foi Camões
que deu à nossa língua este aprumo de vime branco, este juvenil ressoar de abelhas, esta graça
súbita e felina, esta modulação de vagas sucessivas e altas, este mel corrosivo da melancolia.
Daí ser raro o verso português digno de tal nome que as águas camonianas não tenham molhado de
luz, desde as mais ásperas das suas consoantes às suas vogais mais brandas.
[..] Afinal, este homem que deixou fama de desabusado, este pobre soldado raso que regressa de
Ceuta a “manquejar de um olho” (para o dizermos com terríveis palavras suas), que serviu na Índia
durante cerca de três lustros sem sequer ter ganho para as passagens de regresso à pátria,
este homem que, segundo um dos seus primeiros biografos, ao morrer não tinha um lençol para
mortalha, estava destinado a consolidar a Hierarquia com o seu Canto – supremo ressoar das águas
de todos os nossos mares e de todos os nossos olhos.
Eugénio de Andrade
IN: Versos e Alguma Prosa de Luís de Camões